Caminhos de espiritualidade: cultura de paz, não-violência, mística, autoconhecimento, compaixão e cuidado pelos seres e pela terra

8 de ago de 2009

GANDHI E A NÃO VIOLÊNCIA, por LIA DISKIN


A respeito disso Gandhi afirma: “Pode garantir-se que um conflito foi solucionado
segundo os princípios da não-violência se não deixa nenhum rancor entre os inimigos e os
converte em amigos”. Isto revela uma ousadia intelectual que amplia nosso entendimento
da condição humana, ao mesmo tempo que promove a criação de um número maior de
alianças para fortalecer o tecido social sobre bases de convivência confiável que, por sua
vez, abrem caminho para a Paz.
É oportuno lembrar que Gandhi testou suas idéias nos tribunais, em meio a
manifestações populares inflamadas, no cárcere junto a dissidentes políticos, entre
parlamentares e até com representantes da coroa britânica. Não é um teórico nem um
acadêmico, mas um político, um cientista social e articulador paciente e persistente.
Tampouco é um romântico que ignora a sedução que exerce em todos nós a sede de poder,
de reconhecimento e de riquezas. Todavia, acredita firmemente na condição transformadora
das forças espirituais que desencadeiam o legado das religiões, independente da cultura
onde tenham florescido. Ele diz a respeito de si mesmo: “Não sou um santo que se tornou
político. Sou um político que está tentando ser santo”.
Referências inspiradoras da sua trajetória. Filho de mercadores, Mohandas
Karamchand Gandhi nasceu em 2 de outubro de 1869, na cidade de Porbandar, na costa
ocidental do norte da Índia. Apesar da admiração que nutria pelo pai – administrador e
funcionário público muito respeitado na comunidade – foi a personalidade de sua mãe,
Putlibai, que exerceu influência definitiva na vida espiritual daquele que se tornaria
Mahatma. (grande alma)
Profundamente religiosa e considerada santa pelo próprio Gandhi, não fazia uma
refeição sem rezar; freqüentava diariamente o templo; jejuava todos os meses com o
propósito de purificação; impunha-se penitências que sempre cumpria e nunca deixava de
atender com extrema boa vontade aos necessitados. Era devota do deus Vishnu, e
observava os preceitos do hinduísmo com alegria e entusiasmo singular.
Esses preceitos estão contidos no Bhagavad Gita, que reúne harmonicamente todas
as disciplinas fundamentais da complexa tradição religiosa indiana, e foi o livro de
cabeceira de Gandhi até seus últimos dias. Ele recitava decor seus dezoito capítulos, e
escreveu um extenso comentário sobre o mesmo à luz dos novos desafios que apresentava o
século XX.
Entretanto, e paradoxalmente, é em Londres que toma conhecimento das riquezas
oferecidas à humanidade pela sua cultura natal. É em Londres também que entra em
contato com a Bíblia, identificando-se de maneira particular com o Sermão da Montanha;
descobre as idéias de Tolstoi, Thoreau, Emerson, Ruskin e os socialistas utópicos, que
estarão presentes na sua concepção política balizada pela ética e a justiça.
Em busca da paz. Permanece em Londres durante três anos; os estritamente
necessários para completar seus estudos de Direito, formar-se advogado e ser admitido na
Corte Suprema Inglesa. Retorna à Índia e logo parte para a África do Sul, onde
permanecerá vinte anos. É ali que vive as humilhações do apartheid, que se depara com
uma sociedade racista e predadora, que sofre os horrores do cárcere e dos trabalhos
forçados. É ali também que nasce o líder político e se gesta a arquitetura da mobilização
social das massas de forma não violenta.
Inspirado nos valores de solidariedade e respeito por todas as formas de vida que
preconiza o Bhagavad Gita, e na revelação da resistência pacífica que havia encontrado na
figura de Jesus no Sermão da Montanha, Gandhi cunha o termo satyagraha, que
literalmente significa “afirmação da verdade” o “triunfo da verdade pelas forças do espírito
e do amor”. O binômio satyagraha/ahimsa – ater-se à verdade e à não violência – constitui
o fundamento da convivência pacífica, que requer um empenho constante por parte de
governos e povos para conciliar interesses e oferecer cooperação em benefícios de todos.
A paz para Gandhi é a condição na qual é possível desenvolver todo o potencial
humano, promover a auto-realização individual e fortalecer o sentimento de comunidade
entre os seres vivos. Isso não exclui o conflito. Muito pelo contrário, ele é necessário para
legitimar a pluralidade de idéias e a diversidade cultural que, em mútua fecundação e
tensão criativa, permitem levantar questões novas oferecendo respostas originais que
mantém aberto o caminho de aperfeiçoamento progressivo das relações democráticas.
Gandhi hoje
A experiência viva de Gandhi foi continuada por quase todos os
“revolucionários” pacifistas do século XX. Notadamente Martin Luther King Jr., Desmond
Tutu, Nelson Mandela, Vaclac Havel e outros, cujas ações construtivas na esfera
econômica, social, política, cultural e religiosa afirmam os princípios mais elevados do
Amor e a Justiça.
A atualidade de suas experiências está evidenciada no fato de ser referência
unânime em todos os estudos e pesquisas contemporâneos sobre cultura de paz, mediação
de conflitos, autogestão/empoderamento, diálogo inter-religioso, simplicidade voluntária e
responsabilidade social. Atualidade endossada nas palavras de Martin Luther King Jr.:
“Gandhi era inevitável. Se a humanidade há de progredir, não poderá esquecer Gandhi. Ele
viveu, pensou e agiu inspirado pela visão da humanidade evoluindo para um mundo de paz
e harmonia. Se ignorarmos os seus ensinamentos, não poderemos queixar-nos”.


Texto extraído de:
http://www.mettaolhar.com.br/

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