Caminhos de espiritualidade: cultura de paz, não-violência, mística, autoconhecimento, compaixão e cuidado pelos seres e pela terra

29 de jun de 2011

Sidarta - Hermann Hesse



Trecho do livro Sidarta de Hermann Hesse. Para ver o pdf clique aqui.

"Durante muito tempo, meses a fio, Sidarta prosseguiu esperando que o menino o compreendesse, que aceitasse o seu amor, que talvez o retribuísse. Meses a fio, Vasudeva nutria a mesma esperança. Aguardava em silêncio, observando o pai e o filho. Certa feita, quando o menino Sídarta mais uma vez magoara o pai com sua obstinação e seus caprichos, chegando a quebrar propositadamente duas tigelas de arroz, Vasudeva aproveitou a noite para falar com o amigo em separado.

— Não me leves a mal — disse — que eu trate dessas coisas. Faço-o como teu amigo. Vejo como te atormentas. Noto que andas tristonho. Meu caro, teu filho te preocupa, e a mim, me preocupa também. Aquele passarinho está acostumado a viver outra vida, num ninho diferente. Não abandonou a riqueza e a cidade por tédio e nojo, como tu o fizeste. Teve de largar tudo isso a contragosto. Olha, meu amigo, já consultei o rio. Consultei-o muitas vezes. Mas o rio limita-se a rir, rir de mim, de mim e de ti também, dá gargalhadas em face da nossa tolice. A água corre para a água. A juventude procura a juventude. Teu filho não se encontra no lugar que lhe convém. Seria bom se tu tamm consultasses o rio. Faze o que ele te sugerir.

Emocionado, Sidarta examinou o rosto do amigo, esse rosto em cujas inúmeras rugas se escondia inalterável serenidade.

Mas, serei capaz de separar-me dele? — respondeu em voz baixa. — Concede-me mais um pouco de tempo, meu caro! Estás vendo como luto, como me esforço por conquistar o coração do menino, pelo carinho, pela paciência, pela doçura, É assim que quero aliciá-lo. Tomara que o rio um dia dirija a sua palavra também a ele. Esse menino tem a mesma vocação que nós.

O sorriso de Vasudeva tornou-se ainda mais caloroso.

— Ah, sim! Também ele tem vocação. Também ele é parte da vida eterna. Mas que sabemos nós, tu e eu, do destino que o aguarda, do caminho que lhe caberá trilhar, das ações que ele deverá realizar e dos sofrimentos que o acometerão? Os des gostos que lhe estão reservados não serão pequenos, uma vez que o coração desse rapaz é duro e altivo. Pessoas da sua espécie têm de padecer muitas amarguras, já que erram freqüentemente, cometem graves pecados e carregam muita culpa na sua consciência. Dize-me uma coisa, meu amigo: não dás nenhuma educação a teu filho? Não lhe impões a tua vontade? Não o surras nunca? Não o castigas?

—. Não, Vasudeva, não faço nada disso.

— Pois é! Não o obrigas a nada; não bates nele; não lhe dás nenhuma ordem, porque sabes que a meiguice é mais forte do que a dureza e a água mais forte do que o rochedo. Muito bem! Aprovo a tua conduta. Mas não te enganas a ti mesmo, quando pensas que não exerces coação alguma sobre ele e não lhe infliges nenhum castigo? Não o agrilhoas pelo teu carinho? Não o humilhas todos os dias e ainda Ihe amarguras a vida, graças à tua bondade e paciência? Não obrigas esse menino soberbo, mimado, a viver numa cabana junto com dois velhos comedores de bananas, para os quais o arroz já representa um quitute e cujo coração gasto, sereno, pulsa em outro ritmo que o dele? Não resulta tudo isso em constrangimento e punição?

Consternado, Sidarta baixou os olhos."