Caminhos de espiritualidade: cultura de paz, não-violência, mística, autoconhecimento, compaixão e cuidado pelos seres e pela terra
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14 de jan. de 2011

Nossa Missão Maior, por Dom Hélder Câmara

Que as sábias palavras de Dom Hélder possam nos colocar no caminho do amor, da paz e da compaixão em 2011. Que esta seja nossa missão primeira, nosso caminho maior, nossa bem-aventurança! Sempre! Salve!

"Missão é partir, caminhar, deixar tudo, sair de si, quebrar a crosta do egoísmo que nos fecha no nosso Eu. É parar de dar volta ao redor de nós mesmos, como se fôssemos o centro do mundo e da vida. É não se deixar bloquear nos problemas do pequeno mundo a que pertencemos: a humanidade é maior. Missão é sempre partir, mas não devorar quilômetros. É, sobretudo, abrir-se aos outros como irmãos, descobri-los e encontrá-los. E, se para encontrá-los e amá-los é preciso atravessar os mares e voar lá nos céus, então missão é partir até os confins do mundo".

2 de nov. de 2010

Por favor, me chame pelos meus verdadeiros nomes , por Thich Nhat Hanh


Por favor, me chame pelos meus verdadeiros nomes,

Não diga que amanhã partirei
porque ainda hoje estou chegando.

Olhe profundamente; eu chego a cada segundo
para ser o botão no ramo de primavera,
para ser o pequeno pássaro, de frágeis asas,
aprendendo a cantar em seu novo ninho,
para ser a lagarta no coração da flor,
para ser a jóia escondendo-se numa pedra.

Eu sempre chego para rir e chorar,
para ter medo e esperança,
o ritmo de meu coração é o nascimento e
morte de tudo o que está vivo.

Eu sou a mosca d’água metamorfoseando-se
na superfície do rio,
e sou o pássaro, que, chegada a primavera,
surge em tempo para engolir a mosca d’água.

Eu sou o sapo nadando alegremente
na água clara do poço,
e sou também a cobra cascavel que,
aproximando-se em silêncio,
engole o sapo.

Eu sou a criança de Uganda, toda pele e osso,
minhas pernas finas como palitos de bambu,
e sou o negociante, vendendo armas mortíferas,
instrumentos de fogo a Uganda.

Eu sou a menina de 12 anos,
refugiada no pequeno barco,
que se atira no oceano depois de
ser violentada pelo pirata do mar,
e eu sou o pirata, meu coração ainda incapaz
de enxergar e amar.

Eu sou um membro do politburo
com muitos poderes nas mãos,
e sou o homem que tem que pagar sua
“dívida de sangue” a seu povo,
morrendo lentamente num campo de trabalho forçado.

Minha alegria é como primavera, que tão calorosa faz
flores desabrocharem em todos os campos da vida.
Minha dor é como um rio de lágrimas, tão cheio que
inunda até à borda os quatro oceanos.

Por favor, me chame pelos meus verdadeiros nomes,
de tal forma que eu possa ouvir todos os meus prantos e risos de uma só vez,
de tal forma que eu veja minha alegria e minha dor
como sendo uma só.

Por favor, me chame pelos meus verdadeiros nomes,
de tal forma que eu possa acordar,
e assim a porta de meu coração seja aberta,
a porta da compaixão.

1 de set. de 2010

Om Mani Padme Hum




Uma explicação sobre o mantra de seis sílabas, Om Mani Padme Hum:

Om fecha a porta para o sofrimento de renascer no reino dos deuses. O sofrimento do reino dos deuses surge da previsão da própria queda do reino dos deuses [isto é, de morrerem e renascerem em reinos inferiores]. Este sofrimento vem do orgulho.
Ma fecha a porta para o sofrimento de renascer no reino dos deuses guerreiros (sânsc. asuras). O sofrimento dos asuras é a briga constante. Este sofrimento vem da inveja.
Ni fecha a porta para o sofrimento de renascer no reino humano. O sofrimento dos humanos é o nascimento, a doença, a velhice e a morte. Este sofrimento vem do desejo.
Pad fecha a porta para o sofrimento de renascer no reino animal. O sofrimento dos animais é o da estupidez, da rapina de um sobre o outro, de ser morto pelos homens para obterem carne, peles etc., e de ser morto pelas feras por dever. Este sofrimento vem da ignorância.
Me fecha a porta para o sofrimento de renascer no reino dos fantasmas famintos (sânsc. pretas). O sofrimento dos fantasmas famintos é o da fome e o da sede. Este sofrimento vem da ganância.
Hum fecha a porta para o sofrimento de renascer no reino do inferno. O sofrimento dos infernos é o calor e o frio. Este sofrimento vem da raiva ou ódio.
Om Mani Padme Hum.

(Adaptado de Thinley Norbu, The Small Golden Key to the Treasure of the Various Essential Necessities of
General and Extraordinary Buddhist Dharma. Traduzido por Lisa Anderson. Boston: Shambhala, 1999. Pág. 101.)

8 de ago. de 2009

GANDHI E A NÃO VIOLÊNCIA, por LIA DISKIN


A respeito disso Gandhi afirma: “Pode garantir-se que um conflito foi solucionado
segundo os princípios da não-violência se não deixa nenhum rancor entre os inimigos e os
converte em amigos”. Isto revela uma ousadia intelectual que amplia nosso entendimento
da condição humana, ao mesmo tempo que promove a criação de um número maior de
alianças para fortalecer o tecido social sobre bases de convivência confiável que, por sua
vez, abrem caminho para a Paz.
É oportuno lembrar que Gandhi testou suas idéias nos tribunais, em meio a
manifestações populares inflamadas, no cárcere junto a dissidentes políticos, entre
parlamentares e até com representantes da coroa britânica. Não é um teórico nem um
acadêmico, mas um político, um cientista social e articulador paciente e persistente.
Tampouco é um romântico que ignora a sedução que exerce em todos nós a sede de poder,
de reconhecimento e de riquezas. Todavia, acredita firmemente na condição transformadora
das forças espirituais que desencadeiam o legado das religiões, independente da cultura
onde tenham florescido. Ele diz a respeito de si mesmo: “Não sou um santo que se tornou
político. Sou um político que está tentando ser santo”.
Referências inspiradoras da sua trajetória. Filho de mercadores, Mohandas
Karamchand Gandhi nasceu em 2 de outubro de 1869, na cidade de Porbandar, na costa
ocidental do norte da Índia. Apesar da admiração que nutria pelo pai – administrador e
funcionário público muito respeitado na comunidade – foi a personalidade de sua mãe,
Putlibai, que exerceu influência definitiva na vida espiritual daquele que se tornaria
Mahatma. (grande alma)
Profundamente religiosa e considerada santa pelo próprio Gandhi, não fazia uma
refeição sem rezar; freqüentava diariamente o templo; jejuava todos os meses com o
propósito de purificação; impunha-se penitências que sempre cumpria e nunca deixava de
atender com extrema boa vontade aos necessitados. Era devota do deus Vishnu, e
observava os preceitos do hinduísmo com alegria e entusiasmo singular.
Esses preceitos estão contidos no Bhagavad Gita, que reúne harmonicamente todas
as disciplinas fundamentais da complexa tradição religiosa indiana, e foi o livro de
cabeceira de Gandhi até seus últimos dias. Ele recitava decor seus dezoito capítulos, e
escreveu um extenso comentário sobre o mesmo à luz dos novos desafios que apresentava o
século XX.
Entretanto, e paradoxalmente, é em Londres que toma conhecimento das riquezas
oferecidas à humanidade pela sua cultura natal. É em Londres também que entra em
contato com a Bíblia, identificando-se de maneira particular com o Sermão da Montanha;
descobre as idéias de Tolstoi, Thoreau, Emerson, Ruskin e os socialistas utópicos, que
estarão presentes na sua concepção política balizada pela ética e a justiça.
Em busca da paz. Permanece em Londres durante três anos; os estritamente
necessários para completar seus estudos de Direito, formar-se advogado e ser admitido na
Corte Suprema Inglesa. Retorna à Índia e logo parte para a África do Sul, onde
permanecerá vinte anos. É ali que vive as humilhações do apartheid, que se depara com
uma sociedade racista e predadora, que sofre os horrores do cárcere e dos trabalhos
forçados. É ali também que nasce o líder político e se gesta a arquitetura da mobilização
social das massas de forma não violenta.
Inspirado nos valores de solidariedade e respeito por todas as formas de vida que
preconiza o Bhagavad Gita, e na revelação da resistência pacífica que havia encontrado na
figura de Jesus no Sermão da Montanha, Gandhi cunha o termo satyagraha, que
literalmente significa “afirmação da verdade” o “triunfo da verdade pelas forças do espírito
e do amor”. O binômio satyagraha/ahimsa – ater-se à verdade e à não violência – constitui
o fundamento da convivência pacífica, que requer um empenho constante por parte de
governos e povos para conciliar interesses e oferecer cooperação em benefícios de todos.
A paz para Gandhi é a condição na qual é possível desenvolver todo o potencial
humano, promover a auto-realização individual e fortalecer o sentimento de comunidade
entre os seres vivos. Isso não exclui o conflito. Muito pelo contrário, ele é necessário para
legitimar a pluralidade de idéias e a diversidade cultural que, em mútua fecundação e
tensão criativa, permitem levantar questões novas oferecendo respostas originais que
mantém aberto o caminho de aperfeiçoamento progressivo das relações democráticas.
Gandhi hoje
A experiência viva de Gandhi foi continuada por quase todos os
“revolucionários” pacifistas do século XX. Notadamente Martin Luther King Jr., Desmond
Tutu, Nelson Mandela, Vaclac Havel e outros, cujas ações construtivas na esfera
econômica, social, política, cultural e religiosa afirmam os princípios mais elevados do
Amor e a Justiça.
A atualidade de suas experiências está evidenciada no fato de ser referência
unânime em todos os estudos e pesquisas contemporâneos sobre cultura de paz, mediação
de conflitos, autogestão/empoderamento, diálogo inter-religioso, simplicidade voluntária e
responsabilidade social. Atualidade endossada nas palavras de Martin Luther King Jr.:
“Gandhi era inevitável. Se a humanidade há de progredir, não poderá esquecer Gandhi. Ele
viveu, pensou e agiu inspirado pela visão da humanidade evoluindo para um mundo de paz
e harmonia. Se ignorarmos os seus ensinamentos, não poderemos queixar-nos”.


Texto extraído de:
http://www.mettaolhar.com.br/

6 de jun. de 2009

Ensinamentos: A Medicina do Altruísmo, por Dalai Lama

No Tibet nós dizemos que muitas doenças podem ser curadas pela medicina do amor e da compaixão. O amor e a compaixão são a base estrutural da felicidade humana e a sua necessidade se encontra no núcleo de nosso ser. Infelizmente há muito tempo o amor e a compaixão vêm sendo omitidos das esferas de interação social. Atualmente estes valores são vividos na família e no lar, e seu uso na vida pública é considerado impraticável e até ingênuo. Isto é trágico. No meu ponto de vista, a prática da compaixão não é simplesmente um sintoma de idealismo não realista, mas o caminho mais eficiente de dedicar-se com afinco aos interesses dos outros do mesmo modo como nos dedicamos aos nossos. Quanto mais nós — como uma nação, um grupo ou indivíduos — dependermos um dos outros, maior deverá ser o interesse em assegurarmos o bem estar uns dos outros.
Praticar o altruísmo é a real fonte de compromisso e cooperação; somente reconhecer a nossa necessidade de harmonia não é o suficiente. Uma mente comprometida com a compaixão é como um reservatório que está transbordando — é uma fonte constante de energia, determinação e bondade. É como uma semente; quando cultivada germina muitas outras boas qualidades, tais como o perdão, a tolerância, a força interna e a confiança para superar o medo e a insegurança. A mente de compaixão é como um elixir; é capaz de transformar uma má situação em uma situação benéfica. Conseqüentemente, nós não devemos limitar nossa expressão de amor e compaixão à nossa família e amigos. A compaixão não é somente uma responsabilidade do sacerdócio, da medicina e de trabalhadores sociais. É o empreendimento necessário em todas as esferas da comunidade humana.
Se um conflito se encontra no campo da política, negócios ou religião, a abordagem altruísta é freqüentemente o único meio de resolvê-lo. Às vezes os muitos conceitos que usamos para mediar uma disputa são os mesmos que causaram o problema. Nesse caso, quando uma resolução parece ser impossível, ambos os lados deveriam recordar da natureza humana básica que as une. Isto ajudará a quebrar o impasse e em longo prazo, ficará mais fácil para que todos alcancem seu objetivo. Embora nenhum lado possa ficar inteiramente satisfeito, se ambos fizerem concessões, no mínimo, o perigo de um conflito adicional estará prevenido. Nós sabemos que esta forma de acordo é a maneira mais eficaz de resolver problemas — por que, então, nós não a usamos mais freqüentemente?
Quando eu levo em consideração a falta da cooperação na sociedade humana, eu concluo que ela se origina na ignorância de nossa natureza interdependente. Eu sou freqüentemente comovido pelo exemplo dos pequenos insetos, como as abelhas. A lei da natureza dita que as abelhas trabalhem juntas a fim de sobreviver. Como conseqüência, elas possuem um sentido instintivo de responsabilidade social. Elas não têm nenhuma constituição, leis, polícia, religião ou treinamento moral, mas por causa de sua natureza trabalham fielmente juntas. Ocasionalmente elas lutam, mas no geral a colônia inteira sobrevive baseada na cooperação. Os seres humanos, ao contrário, têm constituições, amplos sistemas legais e forças policiais; nós temos religião, uma inteligência notável e um coração com grande capacidade de amar. Mas apesar de termos muitas qualidades extraordinárias, na prática ficamos para trás em relação àqueles insetos pequenos; de alguma forma, eu sinto que nós somos mais pobres do que as abelhas.
Por exemplo, milhões de pessoas vivem juntas em cidades grandes por todo o mundo, mas apesar desta proximidade muitos são sós. Alguns não têm nem mesmo um ser humano com quem compartilhar seus sentimentos mais profundos e vivem em um estado de perturbação perpétua. Isto é muito triste. Nós não somos animais solitários que nos envolvemos com alguém somente a fim de se reproduzir. Se fôssemos, por que construiríamos centros e cidades grandes? Mas mesmo sendo animais sociais obrigados a viver juntos, infelizmente nos falta o sentido de responsabilidade com nossos companheiros seres humanos. Será que a falha se encontra em nossa arquitetura social — a estrutura básica da família e da comunidade em que se baseiam nossa sociedade? Será que a falha está em nossas facilidades exteriores — nossas máquinas, ciência e tecnologia? Eu acho que não.
Eu acredito que apesar dos rápidos avanços feitos pela civilização neste século, a causa mais próxima de nosso dilema atual é a nossa ênfase excessiva no desenvolvimento material. Nós tornamo-nos tão absortos em sua perseguição que, mesmo sem saber, nós negligenciamos o desenvolvimento das necessidades humanas mais básicas de amor, da bondade, da cooperação e do afeto. Se não conhecemos alguém ou não nos sentimos conectados a um indivíduo ou grupo particular, nós simplesmente os ignoramos. Mas o desenvolvimento da sociedade humana é completamente baseado nas pessoas que se ajudam. Uma vez que perdemos a essência da nossa humanidade, ficamos destinados a perseguir somente o desenvolvimento material.
Para mim, está claro: um verdadeiro sentimento de responsabilidade pode originar-se somente se nós desenvolvermos a compaixão. Somente um sentimento espontâneo de empatia pelos outros pode realmente nos motivar para agirmos em favor dos interesses deles.

(Traduzido por Thilie Busato Sproesser e revisado por Sheila Busato.)